Entre pastores e lobos

“E estes cães são gulosos, não se podem fartar; e eles são pastores que nada compreendem; todos eles se tornam para o seu caminho, cada um para a sua ganância, cada um por sua parte. “ (Isaías 56:11)

Você se lembra daquele desenho animado que tinha um lobo tentando roubar ovelhas e que sempre era impedido por um cão pastor? O nome do desenho em inglês era  “Wolf and Sheepdog” da série Looney Tunes e Merrie Melodies da Warner Bros. O desenho é uma das obras primas do animador Chuck Jones. Aparentemente não haveria nada de errado com o tema, pois o lobo sempre deseja devorar as ovelhas enquanto o pastor sempre as protege. No entanto há algo muito estranho e ao mesmo tempo familiar neste desenho! Trata-se do seguinte: Tanto o lobo quanto o cão pastor batem cartão de ponto quando chegam de manhã e ao sair no final do dia!

“Bom dia Ralph!”, cumprimenta o cão pastor. “Bom dia Sam!”, responde o lobo. É interessante que quando chegam para “trabalhar” não há nenhuma animosidade entre os dois personagens. Como se vê na foto acima, os dois estão trazendo sua lancheira de forma trivial. Ralph, o lobo está lendo distraidamente o seu jornal. Mas após baterem o cartão de ponto, cada um toma sua posição e, então, tornam-se inimigos.

A animosidade, as posições contrárias e a perseguição permanecem até o momento em que toca a sirene do horário do almoço. Então os dois pegam suas lancheiras, sentam-se e comem seus lanches, conversando amigavelmente. Quando termina o intervalo de almoço, voltam aos seus postos e assumem novamente os seus papéis no cenário. O lobo volta às tentativas de roubo das ovelhas e o cão pastor volta a protegê-las. Tudo permanece inalterado até que a sirene toca novamente, indicando que terminou mais um dia de trabalho.  Aí os dois se encontram no relógio de ponto e novamente conversam cordialmente se despedindo. Até amanhã Ralph! Até amanhã Sam!

O que é estranho, o que é diferente, é evidenciado pela  contrariedade de posições parcialmente anulada por um período de trégua para almoço e totalmente anulada quando o “dia de trabalho” termina.

Embora isso seja estranho, há uma familiaridade com a incoerência de alguns líderes evangélicos e católicos (pastores, padres, bispos, apóstolos e papas). Dentro da igreja são uma coisa e fora dela são outra bem diferente.

Há algum tempo, ouvia pelo rádio do carro o programa do pastor de uma grande igreja da cidade de São Paulo.  O pastor reclamava em um de seus editoriais que não podia ter uma vida comum: Ir à padaria ou tomar um lanche em local público se tornara complicado, pois logo surgia alguém o chamando de pastor e pedindo oração. Então o eloquente pastor afirmava que era um homem comum e que também tinha o direito de ser uma pessoa comum nos seus momentos de folga. Outro pastor, de uma igreja em uma cidade próxima à capital paulista fazia uma violenta campanha de arrecadação para quitar as dívidas da construção de um templo de dimensões faraônicas. As ovelhas deveriam se sacrificar dando dois, três ou mais dízimos por mês a fim de quitar a dívida. No entanto o pastor saiu de férias e, sem o conhecimento da igreja, foi com a família toda para a Disneylândia. Não há nada errado com um pastor sair de férias para a Disneylândia com a família, muito menos ir à padaria ou tomar um lanche em local público. O problema é a incoerência de certas situações que se configuram pela hipocrisia dos homens. Os dois exemplos reais citados acima são apenas a pontinha do iceberg. Ananias e Safira não precisavam doar o dinheiro da venda de seus bens. Nem precisavam vender seus bens. Foram punidos pela hipocrisia. Foram punidos por mentir para o Espirito Santo (Atos 5:1-10).

Então, penso eu, um cristão pode deixar de ser cristão por um momento? Um pastor pode se dar ao luxo de deixar de ser pastor por um tempo, seja ele curto ou longo? Um pastor pode deixar de lado a essência de sua missão por interesses particulares? Um pastor pode viver um personagem diferente daquele que vive dentro da igreja? Um pastor pode ter um discurso dentro da igreja e outro diferente fora da igreja? Pode o pastor exigir de suas ovelhas um padrão comportamental que ele não tem lá fora?

A resposta a estas indagações podem ser contrárias dependendo do se entende por “Pastor”. Se você entende que “pastor” é meramente um cargo, uma profissão, uma ocupação profissional, um meio de “ganhar a vida”, então a resposta a todas as perguntas acima é “SIM”. Mas se você entende, como eu entendo que ser pastor é viver uma missão de extrema responsabilidade para com o Reino de Deus, ser pastor é um dom de Deus que precisa ser desenvolvido com todo o temor para com o Senhor da seara, ser pastor é viver para salvar, para curar e cuidar de vidas, então meu amigo… a resposta às indagações acima é um grande e sonoro “NÃO”!

As incoerências vistas nas mega-igrejas são bem palpáveis e podem ser vistas a olho nu. Só não percebem os mais simples que são, de alguma forma, massa de manobra de seus líderes. Enquanto seus “Padres”, “Pastores”, “Bispos”e  “Apóstolos” (Muitos são verdadeiros “Papas”) vivem em suntuosas mansões em paraísos distantes, seus seguidores se esforçam para quitar suas dívidas e manter os seus “trízimos” e ofertas em dia. A metodologia usada por esses líderes têm rendido milhões e até bilhões de dólares para os seus cofres.

O que mais nos assusta é que por falta de uma referência “mais nobre”, este fato tem despertado nas igrejas menores certa cobiça e, infelizmente, até igrejas convencionais e históricas estão se valendo de métodos análogos para crescimento. Algumas estão usando a mesma metodologia: campanhas, “símbolos de fé”, ênfase violenta na arrecadação financeira.  Não tenho nada contra campanhas ou “símbolos de fé” desde que não estejam relacionados a idolatria. O problema é que estas campanhas sempre têm como ponto central as finanças. Não pode ter campanha de libertação sem envolver dinheiro? Quanto a isso Jesus disse: “Curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios; de graça recebestes, de graça dai.” (Mateus 10:8)

Para onde caminhamos? Se cada um busca seus próprios interesses, onde ficam os interesses do Reino de Deus? Se o pastor toma lanche junto com o lobo e quando sai da igreja sai conversando com mesmo, por melhor que seja o seu “trabalho” e o seu desempenho dentro da igreja, será ele confiável?

Jesus afirmou: “Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas. Mas o mercenário, e o que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê vir o lobo, e deixa as ovelhas, e foge; e o lobo as arrebata e dispersa as ovelhas. Ora, o mercenário foge, porque é mercenário, e não tem cuidado das ovelhas.” (João 10:11-13)

No Reino de Deus não é concebível ter duas identidades. Não se pode ser um “Homem de Deus” dentro da igreja e lá fora ter uma vida impiedosa. O profeta Isaías alertou: “Ai dos que querem esconder profundamente o seu propósito do Senhor, e fazem as suas obras às escuras, e dizem: Quem nos vê? E quem nos conhece?” (Isaías 29:15).

Como Igreja, sendo ovelhas ou sendo pastores, somos todos ovelhas do Sumo Pastor: Jesus. Devemos ser conscientes da igreja como um todo e do Reino de Deus. Todos são responsáveis. Na há tempo nem lugar para negligentes no Reino de Deus. É necessário sobriedade e responsabilidade por parte de todos, mas principalmente dos pastores. Na carta à igreja de Laodicéia em Apocalípse lemos a severa advertência: “Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu; Aconselho-te que de mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças; e roupas brancas, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez; e que unjas os teus olhos com colírio, para que vejas.” (Apocalipse 3:17-18)

Almas estão se perdendo. Pessoas morrendo espiritual e físicamente. Em alguns locais do planeta, como na Somália, centenas de pessoas estão morrendo de fome todos os dias. Políticas neoliberais estão acabando com a família e seus valores. A ética desceu pelo ralo dos interesses escusos.

Conclusão

No desenho ao qual nos referimos parece que o lobo é um elemento necessário, pois bate cartão de ponto e é pago para fazer o que faz. O pastor não se importa que o lobo esteja ali, pois é seu colega e coadjuvante de seu próprio trabalho. Muitas igrejas são exatamente assim. Tudo é um lindo e emocionante “show”. O enfermo, o quebrantado precisa estar lá, pois isso faz parte do “show”. Quanto mais “agitação” melhor, pois há mais lucro. Isso é terrível!

A igreja verdadeira não sobrevive de “shows”. A atuação dos pastores não pode ser limitada a um “show” por mais convincente que seja! O pastor deve viver em função das ovelhas e não o contrário. Se alguém quer ter uma boa e lucrativa profissão com muitas mordomias na vida não deveria jamais optar por ser pastor.

Os pastores devem ter vidas dedicadas e comprometidas com os valores do Reino de Deus e estar constantemente envolvidos com a essência do cristianismo, que é o amor de Deus.

Por Daril Simões

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20 thoughts on “Entre pastores e lobos

  1. A Paz do Senhor Jesus Cristo, Daril.

    É com grata satisfação que comento seu ótimo texto. Precisamos utilizar está fantástica ferramenta (Internet) a nosso favor e assim como João Batista (guardada as devidas proporções) denunciar as injustiças cometidas pelos poderosos, inclusive os “religiosos” que oprimem e distorcem a genuidade do Evangelho. Continue nesta força e que Deus te abençõe.

    Um abraço.

    Gilson Ferreira Neres.

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    • Oi Gilson! Quanto tempo! Fico muito feliz com seu contato (e comentário). Lembranças ao Iatagã, ao Kalil e a toda a grande e abençoada família Neres!
      Um forte abraço

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  2. Caro Daril.

    Tenho imenso prazer em ler suas dissertações, pois você tem o dom da palavra e sempre nos comunica uma mensagem que nos seja útil e reflexiva. Os fatos são notórios e reais, infelizmente, quanto ao tema abordado. Neste plano terreno em que prevalece a matéria sólida, nas intempéries das vicissitudes tende o ser humano a procurar o imediatismo. Vamos rogar à Deus que nos proteja hoje e sempre, e resgate suas ovelhas perdidas.
    Salmos 119:105 ” Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho.”

    Abraço do seu colega,
    Franz

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    • Franz, obrigado pelo comentário. Seus comentários têm significativa importância para mim, pois na vida secular somos colegas de trabalho há quase vinte anos. Se há alguém que poderia testemunhar contra é você, pois me conhece muito bem e não é evangélico (ainda). Eu o tenho em grande estima. Um forte abraço

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  3. O mercantilismo invadiu os meios eclesiásticos. Nada mais é que a busca por interesses próprios e de poder absoluto. “Cantores” que receberam dom gratuitamente de Deus para louvá-lo, enterraram seus talentos na areia da ambição. Trocaram a Bíblica Sagrada “de baixo do braço” por DVDs e CDs “de baixo do braço”, quando chegam à Igreja ou à shows gospel.
    Sem contar que muitos pastores recorrem às palavras do apóstolo Paulo para justificar a remuneração de pastores. Esqueceram do contexto todo, onde o apóstolo Paulo é apresentado como um senhor também fazedor de tentas. Não há nenhuma jusficativa embasada biblicamente, no texto original dos canones, em hebraíco, que justifique a atitude de exploração de pastores, bispos, apóstolos, padres e demais hieraquias eclesiásticas. Desculpe Daril, só quis acrescentar um pouco mais ao seu texto feliz e oportuno, escrito inteligentemente, sem versos rebuscados, mas inteiramente compreensível e embasado. Deus Seja Louvado por isso!!!!!!!!

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    • Obrigado Jorge Neves! Fique a vontade para tecer os comentários que achar necessários. A participação dos leitores é muito importante. No seu caso que é jornalista é ainda mais importante pois é um formador de opinião!
      Um forte abraço

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      • Obrigado Daril !!!! VC é muito gentil e iluminado!!!!Tem um espirito sereno e cristão….
        Só quero fazer uma retificação sobre o texto dos sonhos, onde troquei Tomé por Timóteo…..Desculpe. Embora a necessidade de Tomé era ver para crer, isso não significa nehuma crítica que faço ao apóstolo, mas sim, um episósio necessário para que Jesus pudesse manifestar sua sabedoria e nos dar mais um grande exemplo. A fé vem pelo ouvir e é a ” certeza das coisas que não se vêm, mas que se esperam”…. é a plena convicção, absoluta confiança, certeza daquilo que esperamos sem nenhum rastro de desconfiança da palavra dita por Deus… Por isso ” bem aventurado os que não viram, mas creram!!!!!disse Jesus….

        Deus nos abençõe Daril……..

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        • Eu é que sou grato Jorge. É nosso dever sempre levar adiante a luz da Palavra. É uma obrigação e também um privilégio, aliás, obrigação e privilégio de todo cristão. Não é razoável esconder a lâmpada debaixo da cama. Quanto à troca de Tomé por Timóteo, acabei de fazer a correção.
          Continue conosco. Um forte abraço

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  4. Muito bom texto Daril!

    Que Deus derrame bênçãos sem medidas sobre vc e continue te usando.

    Um Abraço.

    Robinson

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  5. tinha lido o post sobre a proposta demoniaca, mas nao havia voltado. recebi este novo post no meu email, e a primeira reação: mais spam.
    agora que li, peço que continues enviando, a cada post, pois o texto é muito sóbrio e critica um dos pontos nevrálgicos destas igrejas, de uma forma educada e cortês.
    excelente trabalho!

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  6. Parabéns Daril… Gostei muito do texto Entre Pastore e Lobos… Desejo que Deus continue te usando muito. Um grande abraço do seu amigo, Rai

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  7. Olá Daril, ótimo texto, acredito que o verdadeiro valor da vida está na simplicidade, com ela deixamos de ser egoístas, e conseguimos enxergar que estamos aqui neste mundo para evoluir, mas para isso temos que observar primeiramente as nossas condutas, com ética e discernimento, nos colocar no lugar do “outro” que é nosso irmão em Cristo. Precisamos de pastores conscientes e capazes de amar o próximo como a si mesmos. Obrigada pela sua grande contribuição no mundo. Um bj, Mara Pontes

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  8. Muito boa sua visão, gostaria de agradecer por conhecimentos tão oportunos nos dias em que vivemos,PARABÈNS!!!!

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    • Obrigado por seu comentário! São dias difíceis estes em que vivemos, quando muitos daqueles que deveriam demonstrar a essência do evangelho são os primeiros a trair o evangelho!
      Um forte abraço

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  9. Shalom querido Daril. Magnífico, também gosto de fazer esse tipo de paralelo, para abrir mais a visão, o lobo simboliza o espírito do anticristo e o cão pastor o falso profeta, esse é o sistema infelizmente atuante dentro da igreja.
    Meu consolo é que terá o Julgamento, naquele grande dia o SENHOR dirá a muitos, apartai-vos de mim malditos, não vos conheço.
    O sonho que vc teve abaixo, também o homem simboliza o espirito do anticristo e o sistema existe alguns tipos de sistema o eclesiastico, o mundano e o financeiro e terão grande influencia nos finais dos tempos. Vai nesta tua força.
    Um abraço da irmã Magna Couto

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